Quem tem estenose aórtica, o estreitamento da válvula principal do coração, e também obstruções nas artérias coronárias costuma ouvir uma pergunta que parece simples e não é: o que se trata primeiro, a válvula ou as artérias? Em agosto de 2026, um estudo europeu apresentado no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia e publicado no New England Journal of Medicine comparou as duas ordens possíveis. Neste artigo explicamos, em linguagem simples, por que as duas doenças aparecem juntas, o que o estudo mostrou e o que ele não decide por você.
Por que a válvula e as artérias aparecem juntas
A válvula aórtica é a "porta de saída" do coração: ela se abre para o sangue seguir para o corpo e se fecha para impedir que ele volte. Com o passar dos anos, ela pode calcificar e endurecer. A abertura fica estreita, o coração precisa fazer mais força e podem surgir cansaço, falta de ar, dor no peito e desmaios.
As artérias coronárias, por sua vez, são os vasos que alimentam o próprio músculo do coração. Elas também sofrem com o tempo, por acúmulo de gordura e cálcio nas paredes. Como as duas doenças ligadas ao envelhecimento são comuns na mesma faixa etária, é frequente que a mesma pessoa tenha as duas. Para entender melhor a primeira, veja nossa página sobre a TAVI, o implante de válvula aórtica por cateter. Para a segunda, a página sobre angina e obstrução coronária.
Qual é a dúvida
A TAVI troca a válvula doente por uma prótese levada por cateter, em geral sem abrir o peito. A angioplastia com stent desobstrui uma artéria coronária por dentro, também por cateter. Quando o paciente precisa das duas, surge a questão da ordem.
Quem defende tratar as artérias antes costuma pensar assim: com a válvula estreita, o coração já está sobrecarregado, e uma artéria entupida poderia aumentar o risco durante o procedimento da válvula. Quem defende tratar a válvula antes pensa de outro modo: depois que a válvula é trocada, o coração trabalha com menos esforço, e talvez parte das obstruções nem precise de stent. Há ainda um detalhe técnico: depois que a prótese está no lugar, chegar às artérias coronárias com o cateter pode ficar mais trabalhoso, dependendo do tipo de prótese e da anatomia. Por isso o assunto sempre gerou discussão entre as equipes, e faltava um estudo randomizado para dar mais segurança a essa decisão.
O que o estudo avaliou
O trabalho, chamado TAVI PCI, foi um ensaio clínico randomizado, aberto, realizado em 48 centros da Áustria, França, Alemanha, Itália, Holanda e Suíça. Participaram 986 pessoas com estenose aórtica grave e doença coronária associada. A idade média foi de 82 anos e 34% eram mulheres.
Os participantes foram sorteados para dois caminhos. Em um, a TAVI vinha primeiro e as artérias eram tratadas depois, quando necessário. No outro, a angioplastia vinha primeiro e a TAVI depois. Os pesquisadores acompanharam os pacientes por um ano e olharam para um conjunto de desfechos importantes: morte por qualquer causa, infarto, nova necessidade de reabrir artéria por falta de sangue no coração, internações relacionadas à válvula, ao procedimento ou à insuficiência cardíaca, e sangramento maior.
O que o estudo mostrou
O resultado principal foi que começar pela TAVI se mostrou não inferior a começar pela angioplastia. Em linguagem simples: a estratégia de tratar a válvula primeiro não foi pior do que a tradicional. Esses eventos ocorreram em 22,2% dos pacientes do grupo TAVI primeiro e em 24,2% do grupo angioplastia primeiro. Isso não significa que uma estratégia seja melhor que a outra em todos os casos, e sim que o resultado de um ano foi comparável.
Houve ainda uma diferença em um item específico: o sangramento maior ocorreu em 6,6% dos pacientes do grupo TAVI primeiro e em 9,7% do grupo angioplastia primeiro. É um dado interessante, porque a angioplastia exige medicamentos que reduzem a coagulação do sangue, e fazer a TAVI antes pode adiar ou até evitar parte desse tratamento em alguns pacientes. Ainda assim, trata-se de um dado secundário e deve ser lido com cautela.
O que o estudo não responde
Um estudo bem conduzido ainda tem limites, e é importante entendê-los para não tirar conclusões erradas.
Primeiro, o estudo foi aberto: médicos e pacientes sabiam qual estratégia estava sendo seguida, o que é inevitável nesse tipo de comparação. Segundo, o acompanhamento principal foi de um ano; o que acontece em prazos mais longos precisa de novos dados. Terceiro, "não inferior" significa que a nova estratégia não foi pior dentro de uma margem definida pelos pesquisadores, não que seja superior. Quarto, o estudo incluiu pacientes selecionados, em centros com experiência, e a realidade de cada hospital e de cada paciente pode ser diferente.
Também vale lembrar que o estudo comparou a ordem dos procedimentos, não a necessidade de tratar. Nem toda obstrução coronária precisa de stent. Em muitos casos, a equipe avalia se a obstrução realmente limita o fluxo de sangue, com a ajuda de exames de imagem e de medidas feitas dentro da artéria durante o cateterismo, e só então decide. Para entender como esse exame é feito, veja a página sobre o cateterismo cardíaco, e para conhecer o tratamento das obstruções, a página sobre a angioplastia coronária com stent.
Por que isso importa para o paciente
Para a pessoa que convive com as duas condições, o principal ponto é a flexibilidade. Antes, havia a impressão de que tratar as artérias primeiro era quase uma regra. O novo estudo mostra que, em pacientes selecionados, tratar a válvula primeiro é uma opção segura e razoável. Isso pode permitir, em alguns casos, evitar um procedimento extra ou reorganizar a ordem conforme a urgência clínica de cada doença.
Na prática, a decisão depende de vários fatores: o grau da estenose da válvula, onde estão as obstruções e quanto músculo cardíaco elas ameaçam, os sintomas, a idade, os outros problemas de saúde, o tipo de prótese e a experiência da equipe. Quem decide é a equipe cardiológica, em conversa com o paciente e a família, a chamada decisão compartilhada. Em geral, ela envolve o cardiologista clínico, o intervencionista e, quando indicado, o cirurgião cardíaco.
Como se preparar para essa conversa
Se você ou alguém da sua família tem estenose aórtica e doença coronária, algumas perguntas podem ajudar na consulta: qual é o grau da estenose e o que os exames mostram sobre as artérias; qual das duas condições está causando mais sintomas hoje; que opções de tratamento existem para cada uma; e por que a equipe recomenda uma determinada ordem. Levar os exames anteriores e a lista dos medicamentos em uso facilita muito. Para saber como costuma ser uma primeira avaliação, veja a página sobre a consulta com o cardiologista.
Sinais de alerta: quando procurar urgência
Dor ou pressão no peito, falta de ar intensa, suor frio, desmaio ou sensação de que vai desmaiar, principalmente se aparecerem em repouso ou piorarem rapidamente, podem indicar uma situação grave, como um infarto. Nesses casos, não espere uma consulta: ligue para o SAMU 192 ou vá ao pronto-socorro mais próximo. Para entender o que acontece no infarto, veja a página sobre o infarto agudo do miocárdio.
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação médica individual. Dr. Luiz Carlos Benittez Junior, cardiologista intervencionista, CRM-RO 3803, RQE 955 e 1783.


