Poucos dispositivos médicos geraram tanta conversa de corredor quanto o stent. Ele salva vidas todos os dias e, ainda assim, carrega uma coleção de crenças que atrapalham decisões importantes. Vamos a elas.

Mito 1: "Depois do stent, meu problema está resolvido"

Este é o mais perigoso de todos.

O stent trata uma lesão em um ponto de uma artéria. Ele não trata a aterosclerose, que é uma doença difusa e progressiva de todo o sistema arterial. As placas continuam existindo nos outros segmentos e podem continuar crescendo.

O que efetivamente muda o seu futuro é o que vem depois: controle rigoroso do colesterol LDL, parar de fumar, tratar a pressão e o diabetes, atividade física regular. O stent compra tempo e alivia sintomas. Você constrói o resto.

Mito 2: "O stent pode sair do lugar"

Não sai. Uma vez implantado e expandido, o stent fica firmemente aposto à parede da artéria e, ao longo das semanas seguintes, é recoberto pelo próprio endotélio — a camada interna do vaso. Ele passa a fazer parte da parede arterial.

Você pode viajar de avião, passar por detector de metais e fazer ressonância magnética na esmagadora maioria dos casos com os stents modernos.

Mito 3: "É melhor fazer ponte de safena, que é mais definitivo"

São tratamentos diferentes, com indicações diferentes — não um melhor e outro pior.

Em doença de múltiplos vasos, especialmente em pacientes diabéticos ou com função cardíaca reduzida, a ponte ainda é uma opção a considerar. Mas o cenário mudou bastante: com os avanços recentes da cardiologia intervencionista — novos materiais e o auxílio da imagem intravascular, como o IVUS (ultrassom intracoronário) — já é possível tratar com stents até os casos mais complexos e desafiadores.

Lesões longas, muito calcificadas, em bifurcação, no tronco da coronária esquerda ou oclusões crônicas totais eram, no passado, encaminhadas quase automaticamente para cirurgia. Hoje, em serviços com material adequado e imagem intravascular, boa parte delas é resolvida por cateter — sem abrir o tórax, sem circulação extracorpórea e com alta em um ou dois dias.

No infarto agudo, a angioplastia continua sendo indiscutivelmente superior.

A escolha é feita analisando a anatomia, a função do coração, o diabetes e a condição clínica geral. Quando o caso é limítrofe, a discussão em equipe é o padrão de qualidade.

Mito 4: "Posso parar os remédios quando me sentir bem"

Não. E este é o ponto em que erros custam vidas.

Após o implante, você usará dupla antiagregação plaquetária — em geral aspirina associada a outro antiplaquetário — por um período definido, tipicamente de 6 a 12 meses. Esses medicamentos impedem a formação de coágulos sobre o stent enquanto ele ainda não está totalmente recoberto.

Interromper por conta própria é a principal causa evitável de trombose do stent, uma complicação súbita, com alta mortalidade, que se manifesta como infarto. Qualquer suspensão — inclusive para extração de dente ou cirurgia — precisa ser autorizada pelo cardiologista.

Mito 5: "Sentir-se bem significa que as artérias estão boas"

Infelizmente não. A doença coronariana pode progredir de forma silenciosa por anos. É comum o primeiro sintoma ser o próprio infarto.

É por isso que o seguimento regular, os exames de controle e a manutenção do tratamento importam mesmo quando você está se sentindo ótimo.

Mito 6: "Toda obstrução precisa de stent"

Não precisa — e esse é um dos julgamentos mais importantes do cardiologista intervencionista.

Uma lesão que aparece na tela mas não causa isquemia funcional geralmente é mais bem tratada com medicamentos. Existem ferramentas para medir isso dentro da própria artéria, como o FFR e o iFR, que avaliam se a obstrução está realmente limitando o fluxo de sangue.

Colocar stent onde ele não é necessário expõe o paciente a riscos sem benefício correspondente.

Mito 7: "Quem tem stent não pode fazer exercício"

Ao contrário: exercício físico regular é parte do tratamento.

Após uma angioplastia eletiva sem complicações, atividades leves são retomadas em poucos dias, e a liberação para exercício mais intenso é progressiva e orientada individualmente. Programas de reabilitação cardiovascular estão entre as intervenções com melhor evidência de redução de mortalidade após eventos coronarianos.

Sedentarismo não protege ninguém.


Se você tem stent ou vai colocar um, a conclusão prática é simples: o procedimento é a parte rápida. O tratamento é o que vem depois — e ele é seu.