Quase todo paciente que recebe a indicação de cateterismo chega ao consultório com a mesma expressão. É um exame cercado de mitos, e o desconhecimento costuma assustar mais que o procedimento em si.
Este texto descreve como as coisas realmente acontecem.
Antes: o preparo
Você receberá orientação de jejum de 6 a 8 horas para alimentos sólidos. Os medicamentos de uso contínuo merecem atenção especial: alguns devem ser mantidos, outros suspensos. Remédios para diabetes, anticoagulantes e antiagregantes entram nessa conversa obrigatoriamente — leve a lista completa, com as doses.
Se você já teve reação a contraste iodado, tem doença renal, é alérgico a algum medicamento ou pode estar grávida, avise a equipe antes do dia do exame.
A chegada
Na internação, você troca de roupa, recebe um acesso venoso no braço e é levado à sala de hemodinâmica. Essa sala impressiona: equipamento grande em forma de arco, várias telas, equipe de avental de chumbo. É normal sentir apreensão.
Você fica deitado em uma mesa estreita, é monitorizado e recebe sedação leve. Você permanece acordado durante todo o exame — e isso é proposital: sua colaboração para respirar fundo ou prender a respiração em certos momentos melhora a qualidade das imagens.
O procedimento
O local da punção — de preferência o pulso — é limpo e recebe anestesia local. Essa injeção arde por alguns segundos. É, para a maioria dos pacientes, o único momento desconfortável do exame inteiro.
Depois disso, um cateter fino é introduzido pela artéria e guiado até o coração. Esse trajeto não dói. As artérias não têm terminações nervosas de dor no seu interior — você simplesmente não sente o cateter se movendo.
Quando o contraste é injetado, é comum sentir uma onda de calor subindo pelo corpo, às vezes com a sensação de que se urinou. Passa em poucos segundos e é uma reação esperada.
Nas telas, as artérias coronárias aparecem desenhadas. O cardiologista analisa cada segmento e mede o grau das obstruções.
Por que pelo pulso
A punção pela artéria radial, no pulso, substituiu a virilha na maior parte dos casos. As vantagens são concretas:
- Menor risco de sangramento importante
- Você pode se levantar e caminhar mais cedo
- Alta hospitalar mais rápida
- Bem mais conforto no pós-procedimento
Em algumas situações — anatomia desfavorável, pulso de calibre pequeno, necessidade de cateteres mais calibrosos — a via femoral continua sendo a escolha correta.
E se encontrarem uma obstrução?
Essa é a pergunta que todo mundo faz. Existem três caminhos:
- Angioplastia na mesma sessão. Nos casos de urgência e emergência, como o infarto ou a angina instável, se a lesão é significativa e tratável, o stent pode ser implantado logo em seguida por meio da angioplastia — o chamado procedimento ad hoc. Evita nova punção e nova internação.
- Tratamento com medicamentos. Nem toda obstrução vista na tela precisa de stent. Lesões que não causam isquemia costumam ser mais bem tratadas clinicamente.
- Cirurgia de revascularização. Em doença de múltiplos vasos, especialmente em diabéticos, a ponte ainda é uma opção. Mas, com os avanços recentes da cardiologia intervencionista — novos materiais e o auxílio da imagem intravascular, como o IVUS (ultrassom intracoronário) —, já é possível tratar com stents até os casos mais complexos e desafiadores.
Sempre que a situação permite, essa decisão é conversada com você e com sua família antes de qualquer passo.
Depois
Feito pelo pulso, um curativo compressivo fica no local por algumas horas, sendo afrouxado progressivamente. As orientações habituais são:
- Beber bastante água para ajudar os rins a eliminar o contraste
- Evitar esforço com o braço puncionado por alguns dias
- Não dirigir no dia do exame
- Retomar atividades leves em 24 a 48 horas
No exame diagnóstico sem complicações, muitos pacientes recebem alta no mesmo dia. O procedimento em si costuma durar de 20 a 40 minutos; o dia todo no hospital, de 4 a 6 horas.
O que ninguém costuma dizer
Duas coisas.
A primeira: é normal sentir medo. A ansiedade antes de um cateterismo é quase universal e não é sinal de fraqueza. Diga à equipe como você está se sentindo — isso muda a forma como cuidamos de você na sala.
A segunda: o cateterismo é um exame, não um veredito. Ele responde uma pergunta importante para que a decisão seguinte seja tomada com informação, e não com suposição. Saber o que existe nas suas artérias é sempre melhor do que imaginar.

